A juventude vive um tempo de transformações profundas, marcado por avanços tecnológicos, novas formas de sociabilidade e desafios emocionais cada vez mais complexos. Conversas mediadas por telas, o crescimento das apostas esportivas online, o retorno à religiosidade e a redefinição de hábitos tradicionais revelam um mesmo pano de fundo: a busca por pertencimento, segurança e sentido. A psicóloga Danile Miranda analisa esses fenômenos e aponta caminhos de reflexão.
Conversa mais na tela do que na vida real
O ambiente digital se tornou o principal espaço de interação para muitos jovens, substituindo, em parte, o contato presencial. De acordo com pesquisa da TGI Consultoria, 49% dos brasileiros preferem socializar com amigos online do que presencialmente.
Segundo Danile Miranda, essa preferência não é aleatória. “A comunicação através da tela traz uma sensação de segurança emocional e de controle. Eles escolhem o melhor momento para responder, podem editar ou apagar suas falas e até passar uma ideia de personalidade diferente do que de fato são”, explica.
Essa mediação reduz o medo do julgamento e funciona como um “amortecedor emocional”, protegendo de conflitos diretos e constrangimentos. No entanto, há perdas importantes nesse processo. “Quando a comunicação acontece só por mensagens, essas camadas se perdem ou ficam limitadas. Isso aumenta as chances de mal-entendidos, dificulta a empatia e empobrece a profundidade das relações”, alerta a psicóloga, ao destacar a ausência da linguagem não verbal e seus impactos no desenvolvimento social e profissional.
A sedução perigosa das bets esportivas
O crescimento das apostas esportivas entre jovens tem acendido um sinal de alerta. Ainda de acordo com o levantamento, brasileiros fizeram 62 milhões de pesquisas mensais sobre o termo “bet” na internet em 2024 e 28 milhões realizaram apostas. Para a psicóloga, o fenômeno vai além do dinheiro. “As apostas utilizam mecanismos psicológicos extremamente potentes. Há evidências científicas de que elas ativam o mesmo sistema de recompensa do cérebro que é ativado por drogas”, afirma.
O estímulo intermitente — ganhar, perder ou “quase ganhar” — alimenta a liberação de dopamina e reforça o comportamento repetitivo. Soma-se a isso a ansiedade em relação ao futuro financeiro e profissional. “As apostas aparecem como uma fantasia de solução rápida, associada a status, dinheiro fácil e pertencimento social”, diz. A saída, segundo ela, passa por reconhecer o caráter emocional do problema, criar barreiras práticas e buscar apoio terapêutico e familiar.
Por que tantos jovens estão se aproximando da religião?
Em meio a um mundo acelerado e repleto de incertezas, a religiosidade tem ganhado espaço entre os mais jovens. O estudo aponta que 68% das pessoas de 18 a 24 anos consideram a religião “muito importante”.
“O aumento da religiosidade entre jovens não acontece só por uma busca espiritual, mas por uma tentativa de encontrar direção, sentido, estabilidade e conexão em um mundo extremamente confuso e acelerado. Ambientes religiosos oferecem acolhimento, comunidade e identidade — elementos muitas vezes ausentes em outras esferas da vida”, analisa.
Tecnologia vai acabar com velhos hábitos de convivência
Diante de tantas mudanças, surge a pergunta: hábitos como sentar à mesa para conversar estão com os dias contados? Para Danile, a resposta passa pelo equilíbrio. “O mais realista não é pensar que esses hábitos vão desaparecer, mas entender que eles precisarão de atenção e de consciência para se manterem”, defende
Pequenos rituais familiares ainda têm um papel central na formação emocional. “Sentar à mesa é um espaço de troca, escuta, acolhimento, olhar para o outro e ser olhado”, destaca. O desafio contemporâneo, segundo a psicóloga, não é escolher entre tecnologia ou convivência presencial, mas aprender a integrar ambos de forma saudável e consciente.