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30/09/2026

Mounjaro: a revolução no combate à obesidade e o perigo da banalização

O Mounjaro, nome comercial da tirzepatida, tem dominado as rodas de conversa, as redes sociais e os consultórios médicos. Atuando de forma simultânea nos receptores de dois hormônios envolvidos no metabolismo (GIP e GLP-1), a medicação promove respostas impressionantes no controle da glicemia, na saciedade e na redução espontânea da ingestão calórica. Mas, afinal, o que separa um avanço científico revolucionário de uma arriscada moda passageira?

Para desvendar os bastidores dessa revolução farmacológica, o Rio Ave Corporate News conversou com a Dra. Priscila Cabral, Médica em Nutrologia que atende na clínica Rejuvent, localizada na Torre Graham Bell. Segundo ela, existe um abismo entre o uso estético inconsequente e o tratamento clínico sério da obesidade.

Não é uma medicação que deveria ser utilizada indiscriminadamente por qualquer pessoa que queira perder três ou quatro quilos por uma questão puramente estética, adverte a médica. No Brasil, a tirzepatida está aprovada estritamente para o controle crônico do peso em adultos com obesidade (IMC igual ou superior a 30 kg/m²) ou sobrepeso a partir de 27 kg/m², acompanhado de comorbidades, como hipertensão ou diabetes tipo 2.

Eu costumo dizer que não quero simplesmente um paciente mais leve. Quero um paciente metabolicamente mais saudável e funcional.

A armadilha da balança e a perda muscular

Os dados de eficácia são inegavelmente robustos. No estudo clínico SURMOUNT-1, observaram-se reduções médias de peso próximas ou superiores a 20% em 72 semanas, além de melhora no perfil lipídico e resistência à insulina. Contudo, Dra. Priscila chama a atenção para um detalhe crucial revelado em uma subanálise de composição corporal por DXA: cerca de 25% do peso perdido com o medicamento correspondeu à massa magra, enquanto 75% foi gordura.

É importante esclarecer que massa magra não significa exclusivamente músculo, mas o dado reforça uma preocupação clínica importante: não basta perder peso, precisamos preservar tecido muscular e função, detalha a especialista. Se uma pessoa utiliza uma medicação que reduz muito o apetite e passa a comer pouquíssimo, sem atenção à ingestão adequada de proteínas, e ainda permanece sedentária, podemos ter uma perda de peso numericamente excelente na balança, mas uma composição corporal muito menos interessante.

Por essa razão, o treinamento de força — como a musculação — e o ajuste nutricional proteico são considerados pela nutróloga como pilares inegociáveis durante o tratamento. A especialista destaca, ainda, que nenhum medicamento é isento de efeitos adversos. Priscila aponta que os mais frequentes com a tirzepatida são gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia, constipação, desconforto abdominal e redução importante do apetite.

“Existem também eventos menos frequentes, porém potencialmente graves, que precisam ser conhecidos e avaliados pelo médico, como pancreatite, doença da vesícula biliar, desidratação e complicações relacionadas a sintomas gastrointestinais intensos. O problema do uso sem acompanhamento é que muitas pessoas passaram a enxergar essas medicações quase como um produto estético”.

O mito do Projeto Verão

Outro erro clássico de quem busca a caneta emagrecedora é encará-la como uma solução de curto prazo. A obesidade é uma doença crônica e recidivante. O estudo SURMOUNT-4 evidenciou que a suspensão repentina do tratamento leva a uma recuperação significativa de peso, já que os mecanismos biológicos que favorecem o acúmulo de gordura voltam a atuar.

Isso não significa que todo paciente obrigatoriamente precisará utilizar a mesma dose para sempre. Significa que precisamos parar de tratar obesidade como um projeto de verão, pontua Dra. Priscila. Durante a janela de tempo em que a medicação reduz a fome e aumenta a saciedade, cria-se a oportunidade perfeita para construir o que sustentará os resultados: rotina de sono, treino de força e mudança real de comportamento alimentar.

Os perigos do mercado paralelo

Com a alta demanda, surgiu um mercado clandestino de produtos de procedência duvidosa e manipulações inadequadas. Esse cenário motivou alertas recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre medicamentos falsificados, e da Anvisa, que alertou para riscos de pancreatite aguda e erros graves de dosagem associados ao uso de seringas comuns sem orientação correta.

O problema não são simplesmente as canetas. O problema é banalizar medicamentos extremamente potentes. O perigo começa quando um medicamento passa a ser tratado como tendência de internet, avalia a especialista.

Apesar dos cuidados necessários, a Dra. Priscila Cabral celebra o avanço da ciência em prol daqueles que realmente precisam, mas com uma condição: sou muito defensora do básico bem feito”, disse ela.

Eu sou absolutamente favorável ao avanço farmacológico. Seria um erro ignorar medicamentos que mudaram de maneira tão importante a nossa capacidade de tratar a obesidade. Mas nenhuma caneta substitui músculo. Nenhuma medicação substitui alimentação de qualidade. Nenhum medicamento consegue treinar pelo paciente, dormir pelo paciente ou construir hábitos por ele. A tecnologia pode facilitar muito o caminho, mas saúde de verdade precisa ser construída, conclui.